O VÍCIO DO ÁLCOOL COMO FUGA DE UM SUPEREGO INSUPORTÁVEL

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Freud, fundador da Psicanálise, há muito tempo, já falava dos momentos melancólicos do homem dito normal e chegou até usar cocaína para benefício próprio e indicou também o uso desta a alguns de seus pacientes com finalidades terapêuticas, porém chegou à conclusão que o uso da cocaína não era viável nem para se tratar e nem para tratar os seus pacientes. Mas esses momentos melancólicos é algo que faz parte da vida do homem civilizado, acreditamos que isso seja fruto das repressões instintuais. O álcool é uma droga que tem aceitação para o uso social o que permite que muitas pessoas a utilizem de modo desregrado.

Trataremos, hoje, de modo especial, sobre o uso do álcool como fuga das exigências superegóicas. Para tanto, temos que compreender o que é o Superego, ou seja, sua função na psique do homem. Ao descrever a dinâmica do funcionamento da psique, Freud descreve três sistemas responsáveis pela dinâmica da psique: o EGO, o SUPEREGO e o ID. Vamos, agora, entender um pouco sobre cada um desses sistemas psíquicos. Para tanto, veremos a explicação do site Wikipedia:

“Freud desenvolveu mais tarde, (1923) um modelo estrutural da personalidade, em que o aparelho psíquico se organiza em três estruturas:

Id (em alemãoes, “ele, isso”): O id é a fonte da energia psíquica, a libido. O id é formado pelas pulsões, instintos, impulsos orgânicos e desejos inconscientes. Ele funciona segundo o princípio do prazer (Lustprinzip), ou seja, busca sempre o que produz prazer e evita o desprazer. Não faz planos, não espera, busca uma solução imediata para as tensões, não aceita frustrações e não conhece inibição. Ele não tem contato com a realidade e uma satisfação na fantasia pode ter o mesmo efeito de uma atingida través de uma ação. O id desconhece juízo, lógica, valores, ética ou moral, sendo exigente, impulsivo, cego, irracional, antissocial e dirigido ao prazer. O id é completamente inconsciente.

Ego (ich, “eu”): O ego desenvolve-se a partir do id com o objetivo de permitir que seus impulsos sejam eficientes, ou seja, levando em conta o mundo externo, por intermédio do chamado princípio da realidade. É esse princípio que introduz a razão, o planejamento e a espera ao comportamento humano. A satisfação das pulsões é retardada até o momento em que a realidade permita satisfazê-las com um máximo de prazer e um mínimo de consequências negativas. A principal função do ego é buscar uma harmonização inicialmente entre os desejos do id e a supervisão/realidade/repressão do superego.

Superego (Über-Ich, “super-eu”, “além-do-eu”): É a parte moral da mente humana e representa os valores da sociedade. O superego tem três objetivos: (1) reprimir, através de punição ou sentimento de culpa, qualquer impulso contrário às regras e ideais por ele ditados; (2) forçar o ego a se comportar de maneira moral, mesmo que irracional; e, (3) conduzir o indivíduo à perfeição, em gestos, pensamentos e palavras. O superego forma-se após o ego, durante o esforço da criança de introjetar os valores recebidos dos pais e da sociedade a fim de receber amor e afeição. Ele pode funcionar de uma maneira bastante primitiva, punindo o indivíduo não apenas por ações praticadas, mas também por pensamentos inaceitáveis; outra característica sua é o pensamento dualista (tudo ou nada, certo ou errado, sem meio-termo). O superego divide-se em dois subsistemas: o ego ideal, que dita o bem a ser procurado, e a consciência (Gewissen), que determina o mal a ser evitado.”

Diante do que vimos na citação acima, podemos compreender mais um pouco sobre o funcionamento desses três sistemas. E fica clara a função do Superego. O problema está no desiquilíbrio desses sistemas, isso não quer dizer que todos os agentes (sistemas) devem ficar no mesmo nível, pois o equilíbrio desses sistemas está em mensurações diferentes. Um Superego desiquilibrado, que cobra muito do indivíduo, é insuportável, ou melhor dizendo, quase insuportável. Isso tudo estamos falando dos valores morais e dos ideais do homem civilizado. Aí, nessas cobranças pessoais, é o espaço em que pode estar a raiz de várias ou a maioria das neuroses. Um sujeito que se ver nesta situação, a de ter um Superego muito exigente, que cobra muito ou que cobra aquilo que o sujeito não tem estrutura para corresponder, acaba  indo em busca de fuga. E esta fuga desse sujeito pode ser a utilização desregrada do álcool.

Mas temos que compreender o sujeito em sua totalidade e que tratar o vício do álcool exige um olhar para o todo do sujeito. E exige também que esse sujeito tenha para si um olhar amplo.

O tratamento psicanalítico para a dependência química do álcool, como de outras substâncias, visa buscar o equilíbrio dos sistemas psíquicos (EGO, SUPEREGO e ID). A escuta psicanalítica possibilita ao paciente dependente químico do álcool a encontrar um novo olhar para si, ou seja, entender-se. E possibilita os primeiros passos em busca de uma vida sóbria, sem drogas.

O desenvolvimento do amor próprio é um dos pilares essenciais no tratamento do dependente químico, sem ele não há como vencer o vício.

O tratamento psicanalítico também ajuda no controle da ansiedade, podemos considerar esta como um dos grandes obstáculos para uma vida sóbria, sem drogas.

Assim, tivemos, hoje, uma noção de como a dependência química do álcool pode ser algo muito mais complexo do que poderíamos imaginar.

Por: Edson Carlos de Sena – psicanalista

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